Críticas à entrevista de Boulos

Por Plinio Sampaio Jr., professor livre-docente do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, economista e pré-candidato a presidente da república em 2018 pelo PSOL

Pela clareza e didatismo, a entrevista de Guilherme Boulos à Carta Capital é leitura obrigatória para toda a militância do PSOL. Nela, o líder do MTST – o candidato desejado pela direção do partido – explicita sua leitura da realidade.

Na visão de Boulos, o golpe de Temer é o grande divisor de águas da vida nacional e o resgate da Nova República é a principal tarefa da conjuntura. A deposição de Dilma é atribuída à radicalização da Casa Grande e seus políticos. O urgência de derrotar os golpistas colocaria na ordem do dia a necessidade da unidade das esquerdas. Investindo contra o sectarismo “da pureza salvadora” e o dogmatismo dos que estigmatizam toda diferença como “divisionismo”, Boulos procura cavar seu espaço como ponto de convergência entre a esquerda socialista e o PT. Aposta que, na ausência de Lula no pleito de 2018, ele possa conquistar protagonismo na política nacional.

Boulos é uma importante liderança popular e sua posição merece o respeito da crítica. A divergência com seu posicionamento é política e deriva da diferença substancial na leitura sobre a natureza da crise que abala a vida nacional, o significado dos governos de Lula e Dilma e os desafios do momento histórico. Ao longo dos próximos meses, na batalha por um processo democrático de escolha do representante do PSOL na eleições de 2018, teremos oportunidade de expô-la de maneira detalhada. Por ora, apenas algumas observações críticas para elucidar nossas discrepâncias em relação à visão da crise política, ao balanço do PT, à concepção de esquerda e à localização da esquerda socialista no tabuleiro eleitoral.

Na ausência de uma perspectiva de classe, Boulos interpreta a crise política como um fenômeno circunstancial, derivado de uma conspiração palaciana, que poderia ser revertida em 2018 com a eleição de um presidente legítimo, que representasse de fato a vontade popular. Daí, a defesa intransigente do direito de Lula disputar as eleições. Sua interpretação não percebe que o golpe não foi de Temer e dos golpistas e nem começou com a deposição de Dilma. O golpe foi do capital contra o trabalho e começou com a reação da burguesia brasileira ao levante da juventude nas Jornadas de Junho de 2013. O primeiro ato do golpe foi a repressão violenta das manifestações com a absoluta cumplicidade de todos os partidos da ordem, inclusive o PT. Nisso, Dilma, Lula, Haddad, Alckmin, Cabral estavam todos juntos. O segundo ato do golpe foi o estelionato eleitoral de Dilma e o início do flagelo do ajuste sem fim, acompanhado, é importante não esquecer, da criação da Força Nacional, da Lei Antiterrorista e a sistemática repressão a todo protesto contra a Copa. A ascensão de Temer – o terceiro ato do golpe – radicalizou a guerra da burguesia contra os trabalhadores. Um golpe preparou o outro. Os que golpearam – todos eles, cada um a seu modo – foram apenas agentes do capital. Ao tornar explicita a falência da Constituição de 1988 e a irreversibilidade da crise terminal da Nova Republica, a deposição de Dilma representou uma mudança de qualidade na crise política, mas nada que justifique uma volta ao passado. Vaso quebrado não tem conserto. É preciso olhar para o futuro.

A incompreensão da profundidade da crise política leva Boulos a caracterizar Bolsonaro como “uma farsa”. É um grave engano. A força de Bolsonaro é real. A agonia da Nova República coloca na ordem do dia a necessidade de sua substituição. Bolsonaro expressa uma resposta radical, pela direita, às crescente parcelas de trabalhadores que perderam completamente a fé no sistema político. Ele cresce não apenas na burguesia e na pequena burguesia, mas também entre os trabalhadores que chegaram à conclusão de que “todos os políticos são iguais”.

A resposta da esquerda da ordem, onde Boulos se situa, é insuficiente. É impossível restaurar um padrão de dominação historicamente condenado. O antídoto à resposta ditatorial de Bolsonaro não é negá-la como possibilidade inscrita na luta de classes, mas oferecer uma alternativa radical pela esquerda à crise terminal da Nova República. O desafio é superar os limites da democracia de cooptação do período anterior. Não há como resolver o antagonismo entre o princípio da representação da vontade popular e o absoluto controle do capital sobre o Estado sem transformações econômicas, sociais e políticas de grande envergadura.

Por fim, a dificuldade para realizar a unidade da esquerda não decorre de picuinhas infundadas, atribuídas à imaturidade e mesquinharias das direções partidárias, como sugere Boulos, mas de compromissos políticos antagônicos que impedem a convergência programática. A impossibilidade da unidade programática é tanto maior quando o regime burguês fecha completamente qualquer brecha para a reforma, como ocorre no capitalismo contemporâneo de uma maneira geral e no Brasil de maneira muito particular. Ao não diferenciar a esquerda da ordem – PT, PCdoB – da esquerda contra a ordem – PSOL, PSTU, PCB – dilui-se o abismo que se interpõe entre os partidos enquadrados nas exigências do capital; e os partidos que se batem pela revolução social. Queira ou não, os primeiros operam necessariamente dentro dos parâmetros da conciliação de classe. Em poucas palavras, o problema da unidade da esquerda não se situa no campo abstrato da psicologia das lideranças políticas e de suas idiossincrasias. O bloqueio a unidade programática das esquerdas decorre das diferenças nos vínculos da esquerda da ordem e da esquerda contra a ordem com as classes sociais que pretendem representar.

É claro que as diferenças qualitativas entre as esquerdas não são – e não poderiam ser – fatores impeditivos de uma unidade na luta em torno de questões concretas como, por exemplo, a defesa da democracia e a preservação de conquistas sociais. Nesse campo, diga-se de passagem, as dificuldades à unidade originaram-se invariavelmente dos compromissos orgânicos da esquerda da ordem com o capital. O ano de 2017 foi emblemático. Toda vez que um empurrãozinho poderia ter derrubado Temer e bloqueado os ataques aos trabalhadores, PT e PCdoB tergiversaram, evidenciando seus compromissos velados com o mundo dos negócios. Unidade nas ruas só quando convém a conveniências partidárias muito particulares é oportunismo.