Vamos de Lula em 2018?

Preocupados em conseguir uma trégua no ataque avassalador da burguesia contra os trabalhadores, uma parte da esquerda socialista flerta com o “volta Lula”. Os defensores de uma aliança política e eleitoral com o PT acreditam que, com o apoio da esquerda e a força dos movimentos sociais, um novo governo democrático-popular poderia revogar as medidas antipopulares do governo Temer (só as do Temer?) e aprofundar os “inegáveis” avanços econômicos e sociais do primeiro ciclo de governos ditos progressistas.Tal avaliação parte de duas premissas fundamentais:

(a) A convicção de que uma vitória eleitoral em 2018 teria o poder de fazer o tempo retroceder, restaurando a autoridade da Constituição de 1988 e recompondo a democracia de cartas marcadas, que sempre funciona à favor dos privilegiados, do período anterior à deposição de Dilma; e

(b) A noção de que o reestabelecimento da situação anterior abriria a possibilidade de retomar de maneira ainda mais vigorosa uma política de Estado comprometida com o combate à desigualdade social, a defesa da soberania nacional e o desenvolvimento auto sustentado.

Para quem se orienta pela interpretação crítica dos fatos históricos e não por narrativas arbitrárias, são premissas que confrontam com a realidade.

A primeira – a vontade da volta ao passado – contradiz o fato de que a história não dá marcha ré. O golpe de força de Cunha e Temer é uma expressão da exaustão da democracia de baixa intensidade, que funciona com dois pesos e duas medidas, que surge no fim da ditadura militar. A crise da Nova República é terminal. Assim como o fim da abolição selou a sorte do Império, a crise da economia cafeeira condenou a República Velha e o abandono da industrialização liderada pelos empresários nacionais levou ao golpe de 1964, agora, a crise terminal da industrialização liderada pelas empresas multinacionais condena a Nova República. A disputa real é saber o que colocar em seu lugar (e não como prolongar sua agonia).

A segunda premissa – as virtudes do chamado neodesenvolvimentismo da era Lula – nunca passou de um mito. Ao subordinarem a política econômica aos interesses dos negócios e das oligarquias endinheiradas, os governos do PT simplesmente reproduziram o círculo vicioso do subdesenvolvimento. Não é de estranhar que a ilusão de que o Brasil estaria a caminho do desenvolvimento, combinando crescimento e combate às desigualdades sociais, tenha sido substituída pelo sentimento de impotência e desesperança em relação à volta de problemas econômicos, sociais e políticos que se imaginavam superados. No capitalismo selvagem, não existem bases para conciliar lucro, democracia e soberania nacional.

Antes de requentar o lulismo, a esquerda socialista deveria preocupar-se em construir um programa de ruptura que abrisse novos horizontes para o enfrentamento dos problemas que afligem os brasileiros. O ponto de partida deve ser uma leitura cuidadosa da realidade e uma crítica implacável da desastrosa passagem do PT pelo governo federal.